Um mapeamento poético dos azulejos antigos no Rio de Janeiro


O que as paredes contam sobre uma cidade?
O que permanece, mesmo quando tudo parece prestes a desaparecer?

Há uma arqueologia que não exige escavação. Ela se faz em superfície, com os olhos abertos e o passo lento. Os azulejos que ainda resistem nas fachadas, muros e interiores do Rio de Janeiro são camadas geológicas da cidade expostas à luz, estratos visíveis de um tempo que não passou inteiramente, porque nunca cessa de falar.

“Identidade, Afeto e Memória” é um projeto fotográfico que nasce do gesto simples — e ao mesmo tempo profundamente simbólico — de olhar para os detalhes esquecidos no tecido urbano do Rio de Janeiro. Desde 2021, venho caminhando pela cidade com um olhar atento e afetivo, registrando os azulejos antigos que ainda resistem nas fachadas, muros e interiores dos imóveis: fragmentos visíveis de uma memória coletiva que a especulação imobiliária, a umidade e o descaso ameaçam apagar a cada reforma, a cada demolição, a cada camada de tinta.

Cada azulejo fotografado carrega não apenas um padrão gráfico, uma textura ou uma cor. Carrega também as camadas invisíveis do tempo: a mão que escolheu, o pedreiro que assentou, a história da casa, dos moradores e das transformações que moldaram a paisagem urbana ao longo das décadas. Muitos desses padrões chegaram de Portugal, da Bélgica, da Inglaterra e da França nos séculos XIX e início do XX — atravessaram o Atlântico nos porões de navios e foram assentados por mãos anônimas em sobrados do Centro, em casarões da Tijuca, em vilas operárias do Méier, em residências do Catete. Outros nasceram aqui, filhos de uma indústria cerâmica nacional que floresceu e declinou com o próprio Brasil moderno. Todos, sem exceção, sobreviveram.

O azulejo é, em si, um objeto arquitetônico peculiar: vive na fronteira entre o estrutural e o ornamental, entre o funcional e o simbólico. É pele do edifício — proteção contra a umidade, regulação térmica — mas também sua memória visual. Quando um imóvel é reformado e os azulejos são removidos ou cobertos, não se perde apenas uma decoração: perde-se uma camada de legibilidade urbana, um documento que não foi escrito em papel mas em barro vitrificado, em pigmento e em fogo.

Este projeto é, antes de tudo, um exercício de escuta sensível da cidade, uma tentativa de criar um arquivo vivo da materialidade afetiva que nos cerca, mas que muitas vezes passa despercebida na pressa do cotidiano. Através da fotografia, do registro e da geolocalização, construo um mapa afetivo dos azulejos, onde cada imagem está ancorada no espaço, marcada por um pin que indica sua localização precisa. Esse mapa não é apenas cartográfico: é uma contranarrativa da cidade oficial, daquela que se conta pelos grandes monumentos e pelas obras visíveis do poder. Aqui, o que importa é o detalhe que ninguém encomendou preservar.

Quando encontro o mesmo padrão de azulejo em endereços distintos, uma roseta azul e branca na Glória e outra idêntica no Estácio, um friso geométrico no Catumbi ecoando numa fachada de São Cristóvão —, algo se revela para além da coincidência estética. Essas repetições são rastros de um mercado, de uma época, de uma escolha compartilhada por construtores e moradores que jamais se conheceram. São costuras invisíveis entre diferentes pontos da cidade, linhas que redesenham a topografia urbana segundo uma lógica que não é a dos bairros nem a das classes sociais, mas a das afinidades materiais e dos fluxos do gosto ao longo do tempo.





O Rio de Janeiro que emerge desse mapeamento não é o da cartografia oficial. É uma cidade porosa, feita de superfícies que guardam o que a velocidade da metrópole tenta apagar. Uma cidade que pode ser lida por quem aceita andar devagar, inclinar o olhar, e deixar que um quadrado de quinze centímetros de cerâmica abra uma janela para o século passado.

“Identidade, Afeto e Memória” não busca apenas documentar. É um convite à contemplação, à desaceleração e ao encantamento com aquilo que, por estar tão presente, às vezes se torna invisível. É uma reflexão sobre como os objetos, os materiais e os detalhes da paisagem urbana são depositários silenciosos das histórias que nos constituem, e como, ao olhar para eles, também olhamos para nós mesmos. O azulejo nos devolve um rosto da cidade que não está nos guias turísticos nem nos inventários oficiais. Está ali, na parede que passa todos os dias sem ser vista, esperando o gesto de quem para.

Este projeto segue em constante construção, acompanhando o movimento da cidade, suas perdas, permanências e transformações. Porque, assim como os azulejos, a própria memória urbana é feita de peças que se encaixam, se quebram, se reinventam — e que, quando reunidas, contam quem somos. E porque cada azulejo perdido é também uma palavra apagada de uma história que ainda não aprendemos completamente a ler.

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