O nome já é, em si, uma instabilidade. Tijuca, de origem indígena, é água parada, brejo, matéria em suspensão, uma geografia que insiste em não se fixar. Historicamente, o nome migrou das lagoas às montanhas, da floresta ao bairro, como se o próprio lugar operasse por camadas sobrepostas de sentido, nunca inteiramente esgotadas, nunca completamente legíveis.

Há algo nessa indeterminação que faz do nome uma senha de pertencimento: quem diz “Tijuca” com a entonação certa já sabe que está falando de algo que excede a categoria de bairro. Se “carioca” pudesse ser nome, “tijucano” seria sobrenome, não apenas um gentílico, mas uma condição. Um modo de existir ancorado na memória, no apego e em uma certa resistência às narrativas hegemônicas da cidade: aquelas voltadas para o litoral, para o espetáculo da paisagem aberta, para o Rio que se exibe. A Tijuca é o Rio que habita. A zona norte que não precisa de orla para ter identidade: tem praças, tem clubes, tem o peso específico das fachadas ecléticas resistindo entre os espigões, tem a Conde de Bonfim às seis da tarde.

Há bairros que se apresentam. A Tijuca não, ela se revela. Exige uma certa disposição para a lentidão, uma abertura ao desvio, uma aceitação de que o caminho mais interessante raramente é o mais direto. Quem a conhece por dentro sabe que ela é feita de camadas que só se mostram a quem está disposto a andar sem pressa, e que cada esquina guarda, sob o verniz do cotidiano, uma sedimentação densa de tempo e experiência.

“Tijuca” nasce de uma deriva afetiva sobre esse território. Uma prática que começou como exercício de atenção e foi se tornando, quase sem que se percebesse, uma cartografia sensível, um modo de mapear o bairro não pela sua geometria oficial, mas pelas suas texturas invisíveis: o que permanece, o que some, o que insiste em existir à margem da velocidade urbana.




Há uma relação com este bairro que antecede a moradia e que é difícil de nomear com precisão. Ela se formou em camadas, ao longo de anos, feita de passagens e não de permanência, como se a Tijuca tivesse sido habitada antes de ser morada, inscrita no corpo antes de ser endereço. Há quem conheça um lugar pela raiz; outros o conhecem pela deriva. Este projeto nasce dessa segunda forma de pertencimento: lateral, afetiva, construída aos poucos no ritmo dos deslocamentos.

O trabalho se constrói a partir de uma tensão que o próprio bairro encarna: entre permanência e transformação, entre o traço historicista das fachadas ecléticas e os espigões que avançam sobre os lotes, entre a memória dos clubes e cinemas e a velocidade com que o comércio se renova nas esquinas. A Tijuca não é espetacular, é densa. E é essa densidade que o projeto tenta habitar, registrar e restituir como imagem.

A figura do “tijucano” emerge menos como retrato e mais como personagem difuso, incorporado na arquitetura, nos gestos cotidianos, nas fachadas que se deixam fotografar sem perceber, nos pequenos rituais que atravessam o bairro. A Tijuca não se apresenta facilmente ao olhar de fora, ela exige iniciação. Mas, uma vez dentro, revela um imaginário próprio: ao mesmo tempo familiar e estranho, doméstico e urbano, sentimental e preciso.

A cartografia sensível que este projeto propõe não substitui o mapa oficial, ela o dobra, o tensiona, o habita por dentro. Onde o mapa registra ruas e quadras, as imagens registram o que escapa à geometria: a rua sem saída que tem uma escala de intimidade irrepetível, o bar de esquina que funciona como centro gravitacional de um quarteirão inteiro, o detalhe arquitetônico que sobreviveu a três reformas sem que ninguém soubesse explicar por quê. Cada fotografia é um ponto nesse mapa alternativo, não marcado por coordenadas, mas por atenção.






EXPOSIÇÕES/ PUBLICAÇÕES
MATERIAIS DISPONÍVEIS

2025 - EXPOSIÇÃO COLETIVA - 1° FESTIVAL DE ARTE DO IFRJ - Palácio Gustavo Capanema - Rio de Janeiro - BR
Lambelambe Tijuca.
informações: ifrj promove 1º festival de arte e cultura - intensa programação gratuita
informações: globo.com/rioshow/festival gratuito no Capanema

2025 - EXPOSIÇÃO COLETIVA - 43ª SEMANA ACADÊMICA DO IFRJ - Campus Maracanã - Rio de Janeiro - BR
Lambelambe Tijuca.



Quando o material começou a se organizar, revelou uma concentração recorrente dos registros em uma área específica, posteriormente denominada Área 01: as cercanias da Praça Afonso Pena, as ruas sem saída que despertam interesse pela sua escala de intimidade urbana, aquele silêncio particular das ruas que terminam, e as vias estruturantes como Haddock Lobo, Doutor Satamini e Conde de Bonfim, com seu fluxo incessante de pedestres, veículos e atividades sobrepostas. Não foi uma escolha racional. Foi o resultado de onde o olhar quis voltar, repetidamente, como se essas ruas guardassem algo ainda não inteiramente visto.

A Área 01 tem duas estações de metrô, uma praça que é oásis urbano, clubes sociais ainda ativos, bares com décadas de história no mesmo ponto. Tem a escola que ainda existe e a que já foi substituída por um edifício. Tem o que ficou e o que sumiu — e a distância entre esses dois estados, visível nas imagens comparadas ao longo dos anos, é onde o tempo se torna legível como nunca seria em um mapa convencional.

Desde 2022, os registros passaram a incluir retornos sistemáticos aos mesmos pontos. Esse procedimento, que é ao mesmo tempo método fotográfico e gesto urbanístico, permite ver a cidade não como paisagem estática, mas como processo: algo que está sempre acontecendo, que se transforma em velocidades que só percebemos quando temos com o quê comparar. Algumas quadras, em apenas quatro anos, já viram o mesmo endereço abrigar três comércios diferentes. Outros pontos permanecem inertes, como se resistissem ao tempo por pura teimosia material. Entre esses dois estados, o que muda e o que persiste, está o que este projeto procura cartografar.

“Tijuca” é, assim, um exercício de aproximação e estranhamento: um olhar sobre um espaço que resiste em se tornar apenas paisagem, insistindo em permanecer como experiência, memória e construção contínua. Uma cartografia feita não de linhas, mas de imagens; não de limites, mas de limiares, os pontos onde o cotidiano revela, para quem está disposto a ver, a espessura do tempo depositada nas coisas.



O projeto reúne imagens produzidas entre 2021 e 2025, articulando permanência, transformação e memória urbana a partir de um olhar atento sobre o cotidiano e suas camadas visuais. Foi exposto em duas ocasiões em formato de mosaico em lambe-lambe, forma que lhe é própria, porque a colagem na parede é ela mesma temporária, feita para ser lida de perto e de longe, para durar o tempo que durar, e integra hoje o acervo permanente da Reitoria do IFRJ.

Porque andar pela Tijuca com atenção é descobrir que o bairro nunca termina de se apresentar. Há sempre uma rua sem saída que ainda não foi percorrida, uma fachada que ainda não foi vista direito, um detalhe que estava sempre lá e que só hoje, por alguma razão, decidiu aparecer. A cartografia sensível nunca se fecha, ela permanece, como o bairro, em constante construção.